segunda-feira, 30 de março de 2009

espectro da reabilitação

ESPECTRO DA REABILITAÇÃO

Esta história não é a minha.
CAJE (Centro de Reabilitação Juvenil Especializado), este é o nome que se dá ao lugar onde são apreendidos os menores que cometem infrações penais, e lá são submetidos a ações de inclusão social. Bem, era para ser. A seguir, a história de mais uma peça desta fantasiosa casa de reabilitação.

Seu nome é Ademar, tem 22 anos, 6ª série incompleta, traficante, vários furtos e roubos, dois homicídios, um latrocínio (roubo seguido de morte), uma tentativa de homicídio, bem, como se não bastasse, ainda tem uma pretensão de homicídio, é, Ademar tem que matar uma pessoa até a páscoa, ele até me disse que não quer fazer isto, afinal, ele está tentando se redimir de seus pecados sociais, mas, você sabe, quem entra debaixo de uma chuva, normalmente tem que se molhar. No caso de Ademar, as coisas se complicam um pouco mais, o seu histórico familiar, sua mãe também era traficante, seu pai apenas um drogado, mas sabemos que é de uma baforada que se vira um “patrão” no tráfico, sua namorada, seu tio e muitas outras pessoas próximas a ele todas relacionadas às contravenções penais.

Era uma noite de chuva, Ademar como de costume tinha que dormir, eu estava crente que ele iria para sua casa, tomar uma banho quente e depois, com o seu corpo limpo e cansado, iria desfrutar de uma cama preguiçosa, de um cobertô acolhedor como os braços de uma mãe e mergulhar no teu sono, bem, seria o que eu iria fazer, quando eu chegasse em casa, mas alguns vinte metros de após uma despedida, vi Ademar se refugiar embaixo de um telhado em um estabelecimento próximo de onde estavamos, e ali tirar de sua única companheira, a mochila, um blusão, que eu pensei que ele fosse usar para se proteger do frio e da chuva até chegar a sua casa, de fato, o blusão era pra se proteger, mas não era para ir para sua casa, pois na verdade ele não tinha sequer uma casa. Ele se agachou, se recostou em um canto, e a mochila agora se transformaria em um travesseiro, provavelmente sem conforto algum, confesso que quando vi aquilo, chorei por dentro como a noite chorava com aquela chuva fina, fria e pegajosa.

Eu tive poucos contatos com Ademar depois deste dia, mas o bastante pra conhecer uma história a mais de pessoas que não tiveram um bom passado, sofrem no presente e talvez não tenham futuro. Ele é mais um dos figurantes desta pseudo-recuperação e socialização que pregam pra gente.

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