CARPE DIEM
Sete horas da manhã. É a hora que o meu galo (meu galo canta Rolling Stones e tem 11 teclas) começa a cantar. O frio estava congelando até o incongelável. E de cinco em cinco minutos eu acordo um pouco até chegar às 7h20, foi quando eu levantei, fui ao banheiro me preparei para tomar banho. Abri o registro e... nada de água. Fiquei furioso da vida. Arrumei-me e fui pegar o ônibus para o meu trabalho, na hora de passar na roleta... o cartão não funcionava. Fiquei furioso. Cheguei ao meu trabalho e lá discuti com um colega de trabalho, e eu tinha razão. Ele ficou furioso.
Quando o meu expediente acabou, por volta de 13 horas, fui para o meu outro trabalho. Novamente meu cartão não funcionou, e no meio do percurso o ônibus em que eu estava derrapou na pista entrando no canteiro central, foi um grande susto. Todos no ônibus ficaram furiosos. Nesta tarde fui procurar no terminal de ônibus o celular que eu perdi na semana anterior, não achei. Fiquei furioso. Nesta mesma tarde andei como um camelo pelo deserto. Desta vez fiquei cansado.
Ao cair da noite e próximo da faculdade onde estudo, inventei de comer um “yakisoba”, a atendente disse que seria apenas “cinco minutinhos moço”. Passou-se meia hora e nada do bendito yakisoba chegar. No final das contas, depois da meia hora e algumas garfadas a comida japonesa feita e vendida por nordestinos não existia mais. Estava satisfeito. Direcionei-me para a biblioteca da faculdade usar o computador para enviar o meu trabalho para a professora, e nenhum computador funcionava. Dei um murro no computador.
Depois de toda esta conturbação voltei para casa, chegando lá recebi a notícia de que um jovem de dezoito anos tinha sido assassinado por apenas trombar em seus futuros assassinos, eu o conhecia desde criança. Fiquei triste. E não apenas isto, mas que perto da minha casa uma criança de apenas seis anos tinha sido atropelada por um caminhão, ela não resistiu aos ferimentos e morreu no local. Fiquei mais triste ainda. Foi aí que eu fui tomar banho e quando abri o registro percebi que tinha água. Fiquei decepcionado comigo.
Debaixo da água quente do chuveiro comecei a repensar no meu dia. Descobri que a água acaba, mas volta. Que se o cartão não funciona alguém pode pagar a minha passagem (e foi o que aconteceu), que se eu brigar com alguém, eu posso recomeçar esta amizade. Que se eu perder um celular eu posso ganhar outro (foi o que aconteceu). Mas uma coisa nunca mais vai voltar, a vida destas duas crianças. Encostando a cabeça no travesseiro para dormir,senti meu corpo e mente livre da fúria e decepção que outrora me dominava, terminei mais um dia, vou dormir e vou acordar. Eu estou vivo.