terça-feira, 23 de junho de 2009

CARPE DIEM
Sete horas da manhã. É a hora que o meu galo (meu galo canta Rolling Stones e tem 11 teclas) começa a cantar. O frio estava congelando até o incongelável. E de cinco em cinco minutos eu acordo um pouco até chegar às 7h20, foi quando eu levantei, fui ao banheiro me preparei para tomar banho. Abri o registro e... nada de água. Fiquei furioso da vida. Arrumei-me e fui pegar o ônibus para o meu trabalho, na hora de passar na roleta... o cartão não funcionava. Fiquei furioso. Cheguei ao meu trabalho e lá discuti com um colega de trabalho, e eu tinha razão. Ele ficou furioso.

Quando o meu expediente acabou, por volta de 13 horas, fui para o meu outro trabalho. Novamente meu cartão não funcionou, e no meio do percurso o ônibus em que eu estava derrapou na pista entrando no canteiro central, foi um grande susto. Todos no ônibus ficaram furiosos. Nesta tarde fui procurar no terminal de ônibus o celular que eu perdi na semana anterior, não achei. Fiquei furioso. Nesta mesma tarde andei como um camelo pelo deserto. Desta vez fiquei cansado.

Ao cair da noite e próximo da faculdade onde estudo, inventei de comer um “yakisoba”, a atendente disse que seria apenas “cinco minutinhos moço”. Passou-se meia hora e nada do bendito yakisoba chegar. No final das contas, depois da meia hora e algumas garfadas a comida japonesa feita e vendida por nordestinos não existia mais. Estava satisfeito. Direcionei-me para a biblioteca da faculdade usar o computador para enviar o meu trabalho para a professora, e nenhum computador funcionava. Dei um murro no computador.

Depois de toda esta conturbação voltei para casa, chegando lá recebi a notícia de que um jovem de dezoito anos tinha sido assassinado por apenas trombar em seus futuros assassinos, eu o conhecia desde criança. Fiquei triste. E não apenas isto, mas que perto da minha casa uma criança de apenas seis anos tinha sido atropelada por um caminhão, ela não resistiu aos ferimentos e morreu no local. Fiquei mais triste ainda. Foi aí que eu fui tomar banho e quando abri o registro percebi que tinha água. Fiquei decepcionado comigo.

Debaixo da água quente do chuveiro comecei a repensar no meu dia. Descobri que a água acaba, mas volta. Que se o cartão não funciona alguém pode pagar a minha passagem (e foi o que aconteceu), que se eu brigar com alguém, eu posso recomeçar esta amizade. Que se eu perder um celular eu posso ganhar outro (foi o que aconteceu). Mas uma coisa nunca mais vai voltar, a vida destas duas crianças. Encostando a cabeça no travesseiro para dormir,senti meu corpo e mente livre da fúria e decepção que outrora me dominava, terminei mais um dia, vou dormir e vou acordar. Eu estou vivo.

segunda-feira, 30 de março de 2009

espectro da reabilitação

ESPECTRO DA REABILITAÇÃO

Esta história não é a minha.
CAJE (Centro de Reabilitação Juvenil Especializado), este é o nome que se dá ao lugar onde são apreendidos os menores que cometem infrações penais, e lá são submetidos a ações de inclusão social. Bem, era para ser. A seguir, a história de mais uma peça desta fantasiosa casa de reabilitação.

Seu nome é Ademar, tem 22 anos, 6ª série incompleta, traficante, vários furtos e roubos, dois homicídios, um latrocínio (roubo seguido de morte), uma tentativa de homicídio, bem, como se não bastasse, ainda tem uma pretensão de homicídio, é, Ademar tem que matar uma pessoa até a páscoa, ele até me disse que não quer fazer isto, afinal, ele está tentando se redimir de seus pecados sociais, mas, você sabe, quem entra debaixo de uma chuva, normalmente tem que se molhar. No caso de Ademar, as coisas se complicam um pouco mais, o seu histórico familiar, sua mãe também era traficante, seu pai apenas um drogado, mas sabemos que é de uma baforada que se vira um “patrão” no tráfico, sua namorada, seu tio e muitas outras pessoas próximas a ele todas relacionadas às contravenções penais.

Era uma noite de chuva, Ademar como de costume tinha que dormir, eu estava crente que ele iria para sua casa, tomar uma banho quente e depois, com o seu corpo limpo e cansado, iria desfrutar de uma cama preguiçosa, de um cobertô acolhedor como os braços de uma mãe e mergulhar no teu sono, bem, seria o que eu iria fazer, quando eu chegasse em casa, mas alguns vinte metros de após uma despedida, vi Ademar se refugiar embaixo de um telhado em um estabelecimento próximo de onde estavamos, e ali tirar de sua única companheira, a mochila, um blusão, que eu pensei que ele fosse usar para se proteger do frio e da chuva até chegar a sua casa, de fato, o blusão era pra se proteger, mas não era para ir para sua casa, pois na verdade ele não tinha sequer uma casa. Ele se agachou, se recostou em um canto, e a mochila agora se transformaria em um travesseiro, provavelmente sem conforto algum, confesso que quando vi aquilo, chorei por dentro como a noite chorava com aquela chuva fina, fria e pegajosa.

Eu tive poucos contatos com Ademar depois deste dia, mas o bastante pra conhecer uma história a mais de pessoas que não tiveram um bom passado, sofrem no presente e talvez não tenham futuro. Ele é mais um dos figurantes desta pseudo-recuperação e socialização que pregam pra gente.